O significado de licença poética é esse abaixo,
"Liberdade concedida a um artista, não necessariamente um poeta, para se expressar criativamente, sem obediência rígida a um cânone, a uma gramática, a um código ou a um modelo convencional de escrita. Ao sabor deste tipo de liberdade, é possível encontrar os mais diversos desvios à norma poética, desde rimas falsas a versos de métrica irregular, desde temas obscenos em épocas de contenção moral a mistura de várias formas de expressão literária na mesma composição"
retirado de: http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&link_id=906:licenca-poetica&task=viewlink
mas pra mim ela também abrange a interpretação que o espectador, leitor admirador da arte faz sobre ela. Afinal, o poeta nos diz:
"Somos do tamanho do que vemos e sentimos e não do tamanho de nossa altura"
Pensando sobre isso lembrei de uma história que aconteceu comigo, logo que eu estava quase para me formar em Letras temos que fazer o estágio obrigatório e ir pra sala de aula! Eu como estudava a noite fui pra uma turma de EJA, assim fiz todo o planejamento da aula e escolhi esse texto do Dalton Trevisan.
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
— Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
— Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:
— Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
— Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
— Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.
Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
Texto extraído do livro "Mistérios de Curitiba", Editora Record — Rio de Janeiro, 1979, pág. 110.
Tudo sobre o autor em nossa página "Biografias".
Entreguei o texto aos alunos já com uma interpretação de texto, coisa peculiar em aula de Língua Portuguesa, acontece que na minha versão da interpretação eu acreditara que justo no dia que o velhinho foi para a outra cama colocaram o lixo na rua.
A minha sorte é que eu também tinha um pé, aliás um corpo inteiro, no curso de pedagogia e comecei a discussão primeiro ouvindo os aluno e eles prontamente chegaram a interpretação deles o velhinho imaginava e contava ao amigo todas as cenas!
ahahhahahha ah gente eu que nunca tinha tinha colocado o pé numa sala de aula de adultos na minha vida, tive uma ponta de vergonha da minha ingenuidade, mas aceitei bem a visão dos alunos.
Em tempos de rede sociais acho esse texto muito válido na janela de si mesmo cada um diz o que quer, mostra o que lhe convém, e se alguém pegar isso para si, pode se decepcionar !
Acreditem ou não, eu ainda vejo a vida daquele jeitinho que interpretei o texto, se fosse eu que esperasse pela visão da janela e visse lixo, estaria até hoje acreditando que foi pura fatalidade!

1 comentários:
Acho que também veria como vc, infelizmente haviam colocado o lixo naquele momento, me lembraria do que tinha ouvido e saberia que haveria a possibilidade de ver outra paisagem.
Dicas, Truques e Segredinhos!
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